Negócios

O inverno chegou: unicórnios VTEX e Bitso fazem demissão em massa

Depois que Sequoia instruiu fundadores a “fazer o exercício de corte”, centenas de funcionários de tecnológicas foram demitidos só nesta quinta

Unicórnios e empresas menores cortaram milhares de empregos neste outono, segundo a plataforma Layoffs.fyi
03 de Junho, 2022 | 10:50 AM

Bloomberg Línea — Os unicórnios latinoamericanos VTEX e Bitso demitiram centenas de funcionários nesta quinta-feira (26). Só a brasileira VTEX (VTEX) cortou cerca de 200 funcionários, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto. Esse número é equivalente a 13% da equipe, de acordo com esta pessoa. Já a Bitso disse que os cortes foram de 80 funcionários globalmente. A Bitso tem operações no México, Argentina e Brasil.

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A empresa de software para o e-commerce e a startup mexicana de criptomoedas são mais duas que se somam às demissões de dezenas de funcionários do PayPal nesta quinta, enquanto os papéis de tech têm derretido nas bolsas.

A VTEX abriu o capital na NYSE (Bolsa de Nova York) em junho de 2021 a um valuation de US$ 4,7 bilhões. Hoje, a empresa tem uma capitalização de mercado de US$ 820 milhões. Uma pessoa familiarizada com as demissões na VTEX disse que nas últimas semanas os fundadores da empresa cobraram maior eficiência para economizar dinheiro e cortar custos.

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Em abril, a VTEX retomou seu evento anual VTEX Day em São Paulo, que trouxe o campeão da Fórmula 1 Lewis Hamilton como palestrante. “Foi caríssimo. E agora cortaram o time porque disseram que 70% dos recursos da VTEX estão alocados em pessoas”, disse a pessoa familiarizada com as demissões, que preferiu não ser identificada porque as discussões são privadas.

Para as startups bancadas por venture capital também não são tempos fáceis. Unicórnios e empresas menores cortaram milhares de empregos neste outono, segundo a plataforma Layoffs.fyi. Apenas nos últimos dias, a Klarna, a Gorillas e a Olist demitiram pessoas.

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Se o outono já está sendo frio, o inverno do hemisfério sul promete ser ainda mais rigoroso, com grandes gestoras de capital de risco como a Sequoia, a QED, e até mesmo a aceleradora Y Combinator alertando os empreendedores para se prepararem para um cenário econômico mais desafiador e com menor liquidez.

Na quarta-feira (25), a fintech americana Bolt, avaliada em US$ 11 bilhões, demitiu cerca de 250 pessoas, pelo que o CEO Maju Kuruvilla descreveu como “condições de mercado afetando a indústria e o setor de tecnologia mudando”. E o aviso dos investidores para startups é claro: precisam cortar custos. Chamando o ambiente atual de “momento de caldeirão”, a Sequoia disse que os bons tempos não apenas acabaram, mas que não há indicação de quando eles voltarão.

A Sequoia instruiu os fundadores a “fazer o exercício de corte” imediatamente, se ainda não o fizeram, examinando maneiras de economizar dinheiro por meio da eliminação ou redução de projetos, P&D, marketing e outras despesas.

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Em uma postagem no LinkedIn, o cofundador da rede de empreendedores Latitud, Brian Requarth, disse que tempos difíceis estão chegando. “A ressalva é que ainda estamos no início da transformação digital da América Latina e a maioria dos VCs são bem capitalizados. Meu palpite é que os próximos meses serão super agitados e então as coisas vão se estabelecer”, disse.

Segundo Requarth, a parte mais difícil será que os fundadores de empresas de crescimento em estágio final aceitem que talvez precisem fazer o chamado “downturn”, uma rodada com um valuation abaixo da rodada anterior.

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“Lembro-me de quando saímos para levantar capital para o VivaReal/Zap. Eu tinha um term-sheet da General Atlantic que nos precificou significativamente mais abaixo do que eu pensava que valíamos com base na nossa última rodada, mas o mercado tinha resetado e não estávamos crescendo tão rápido quanto deveríamos”, disse. Requarth lembrou que na época deveria ter aceitado o investimento a um valuation menor, porque teria permitido que ele investisse no crescimento futuro da empresa. “Se você pode ficar sustentável, você controla seu próprio destino”, escreveu.

Procurada, a VTEX disse que anunciou uma nova etapa em seu ciclo de expansão eficiente e que este passo impactou diretamente 193 profissionais.

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“Valorizamos muito nossa equipe excepcional, apreciamos profundamente e agradecemos a todos por seu compromisso e trabalho duro. No geral, a decisão de deixar as pessoas irem não foi especificamente sobre o potencial ou o desempenho de cada indivíduo. A decisão de reduzir nossa força de trabalho foi tomada como um julgamento estratégico sobre qual estrutura organizacional pode entregar nossas prioridades ajustadas e alinhadas a esse ciclo orientado a crescimento com eficiência. Todas as nossas iniciativas, incluindo qualquer redução e reestruturação da força de trabalho, sempre foram e serão tratadas com transparência, respeito e responsabilidade. Estamos comprometidos em ajudar os funcionários impactados com recursos necessários para sua transição”, disse a empresa, por meio de nota.

Por meio de nota, a Bitso disse que as decisões sobre as pessoas que trabalham na empresa são tomadas com base na estratégia de negócios de longo prazo para apoiar clientes e a estratégia como empresa. “Trabalhamos em uma indústria de ritmo acelerado que nos obriga a constantemente repensar as habilidades de que precisamos para avançar ainda mais rapidamente para onde nossos clientes precisam que estejamos, levando em consideração o desenvolvimento a longo prazo do mercado e da indústria”, disse a startup.

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Os papéis da VTEX na bolsa de Nova York encerraram o pregão de quinta-feira (26) em alta de 8% e estavam negociados a US$ 4,49 no pós-mercado às 18h16 de Brasília.

(Atualizada com informação dos cortes globais da Bitso)

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Isabela  Fleischmann

Isabela Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups

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