Mercados

Metais agonizam com a guerra, mas empresas continuam comprando da Rússia

Muitos comerciantes e fabricantes que compram de empresas russas estão vinculados a acordos de compra pré-existentes

Produção de alumínio em uma fábrica da United Co. Rusal
Por Jack Farchy, Mark Burton y James Attwood
05 de abril, 2022 | 06:47 PM

Bloomberg — No mês passado, treze representantes da indústria de cobre na London Metal Exchange (LME) foram questionados se o metal russo deveria ser barrado de seus depósitos. Dez deles disseram que “sim”. Mas quando grupos consultivos de níquel e alumínio discutiram a mesma questão, o consenso geral foi um “não”.

A LME, que é quem toma a decisão final, diz que não terá medidas além das sanções do governo - que, até agora, deixaram a maior parte da indústria de metais intocada.

Mas as discussões a portas fechadas refletem uma angústia mais ampla sobre continuar comprando da Rússia, já que a indústria pondera seus próprios interesses comerciais apesar do estigma da guerra - e o fato de que metais essenciais como alumínio e cobre já estarem em falta mesmo antes da invasão da Ucrânia.

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Por enquanto, o metal russo ainda está sendo recebido nas fábricas e canteiros de obras do mundo. Muitos comerciantes e fabricantes que compram de empresas russas estão vinculados a acordos de compra pré-existentes que podem se estender por anos. E os comerciantes de commodities têm essa reputação de serem os últimos compradores e financiadores a abandonarem o barco, mesmo quando outras indústrias já recuaram há muito tempo.

Ainda assim, cada vez mais players do setor dizem que não aceitarão novos negócios russos, e alguns estão trabalhando ativamente para se desvencilhar. Isso está dificultando a venda, por parte dos produtores de metais da Rússia, de qualquer produção que ainda não tenha sido contratada, e pode forçá-los a cortar a produção se não houver mudanças quando os acordos de longo prazo chegarem ao fim.

Para a LME, o risco é que o material extraído na Rússia comece a se acumular em seus armazéns porque não tem para onde ir, criando deslocamentos perigosos na dinâmica do comércio global de metais.

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“Vemos de nossa base de clientes que quase não há interesse em comprar metal russo se eles puderem evitá-lo - e podem”, disse Roland Harings, diretor executivo da gigante do cobre Aurubis, que está representada no comitê de cobre da LME. Se o metal chega para a LME, “tem esse estoque fantasma que influencia o mercado porque revela altos níveis de mercadoria, mas ninguém quer”.

A questão do que acontece com as exportações de metais da Rússia é de grande importância para os mercados globais. O país é um fornecedor importante de paládio, níquel, alumínio, aço e cobre. Os preços de todos esses metais estabeleceram novos recordes em março, embora o aço seja o único alvo direto das sanções até agora. Na terça-feira (5), com os líderes europeus falando sobre sanções adicionais à Rússia, os preços do cobre subiram até 0,8%, para US$ 10.556,50 a tonelada, apenas 2,7% abaixo do recorde.

Como as empresas estão se livrando dos metais russos

A Aurubis, a maior fundição de cobre da Europa, está “tentando sair” de seus contratos de fornecimento russo e é a favor de sanções contra metais, disse Harings em entrevista na semana passada. “Acredito que, no final, qualquer dinheiro que pagarmos acabará nos bolsos errados”, disse ele.

A empresa norueguesa de alumínio, Norsk Hydro, disse que está comprando o mínimo possível em seus contratos com empresas russas e pretende reduzir ainda mais.

Ainda há compradores por enquanto - mesmo na Europa. Produtores de metais russos como a MMC Norilsk Nickel e a United Co. Rusal International tendem a vender em acordos anuais ou plurianuais para grandes grupos industriais e, na maioria das vezes, esses contratos ainda estão sendo cumpridos, segundo fontes a par do assunto.

Traders como a Glencore, que tem um acordo para comprar alumínio da Rusal até pelo menos 2024, e o Trafigura Group, que tem um relacionamento de longa data com a Nornickel, também estão cumprindo contratos na Rússia.

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Ainda assim, há grandes desafios. A maioria das linhas de transporte de contêineres parou de fazer escalas nos portos russos. Metais preciosos como ouro e paládio são normalmente enviados para a Suíça ou Londres de avião - mas a maioria dos voos para fora da Rússia agora estão suspensos.

E poucos novos negócios estão acontecendo. A Glencore, que é uma das maiores traders de commodities russas desde os dias em que o fundador, Marc Rich, fechou acordos com a União Soviética, anunciou na semana passada que não faria novos negócios na Rússia.

Traders dizem que é quase impossível encontrar bancos dispostos a financiar novas compras de metais russos, mesmo na China, o maior consumidor de metais do mundo.

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É aí que entra o debate sobre a LME.

Os produtores geralmente preferem vender seu metal para usuários finais, mas a entrega na bolsa também é uma opção. Os compradores da LME não sabem qual metal receberão até que os contratos expirem.

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Aqueles que defendem a proibição do metal russo dizem que é um risco que os produtores do país possam despejar grandes volumes de metal nos armazéns da LME para levantar dinheiro rapidamente. Se ficasse claro que as ações da LME estão dominadas pelo metal russo que ninguém quer, os contratos da bolsa poderiam passar a ter preços diferentes do resto do mercado global.

A Trafigura já está entregando cobre russo para armazéns da LME na Ásia, desde os últimos dias, depois de não ter conseguido vendê-lo na China, informou a Bloomberg.

Os dois membros do comitê de cobre que votaram contra a proibição - representantes da chinesa Minmetals e da IXM, uma trading de propriedade da China Molybdenum - argumentaram que não era a função da LME impor sanções, e que isso interromperia um mercado já convalescente. Um terceiro, da fabricante francesa de cabos Nexans, se absteve, segundo fontes a par do assunto.

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Os comitês da LME têm apenas um papel consultivo. Mas a bolsa também está lutando com a questão: o presidente-executivo, Matthew Chamberlain, disse à Bloomberg TV que a LME queria garantir que “a bolsa não fizesse parte do financiamento de nenhum tipo de atrocidade” e estava conversando com governos.

A LME disse que não imporá restrições ao metal russo que vão além das sanções do governo. Ainda assim, qualquer movimento dos Estados Unidos, UA, Reino Unido ou União Europeia para atingir os fluxos de metal russos provavelmente levaria a bolsa a bloquear novas entregas.

Na sexta-feira (1), a LME tomou a decisão amplamente simbólica de proibir as entregas de alumínio, cobre e chumbo russos recém-exportados de seus armazéns no Reino Unido, em resposta a uma nova tarifa de importação imposta pelo governo do Reino Unido.

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“O mundo ocidental terá que descobrir maneiras de usar menos metal russo”, disse Duncan Hobbs, diretor de pesquisa da comerciante de metais Concord Resources. “Veremos alguma redistribuição dos fluxos comerciais como resultado do que aconteceu, mesmo se a luta parar amanhã.”

--Com a colaboração de Jessica Zhou.

– Esta notícia foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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