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ESG

Como os motoristas brasileiros vão recarregar seus veículos elétricos?

Associação das montadoras cria grupo de trabalho para expandir a infraestrutura de eletromobilidade, enquanto frota elétrica cresce no país

O  avanço das vendas de carros elétricos no Brasil fez a Anfavea criar um grupo de trabalho para expandir a infraestrutura de carregamento das unidades
09 de Abril, 2022 | 12:16 pm

São Paulo — A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) criou um grupo de trabalho com foco em infraestrutura para eletromobilidade, com o objetivo de estudar a necessidade de instalação de carregadores de veículos elétricos, no momento em que as montadoras apostam cada vez no processo de descarbonização, aposentam modelos que consomem combustíveis fósseis e tentam reanimar as vendas após dois anos de pandemia da Covid-19.

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O governo paulista está acompanhando esse processo e cogita criar incentivos à expansão da frota elétrica, como condições diferenciadas na cobrança de taxa em praças de pedágio.

A entidade informou que a atual frota brasileira de veículos elétricos é estimada em 10 mil unidades, enquantos os pontos de recarga disponíveis somam apenas 1.000. A título de comparação, a Europa possui uma frota de 3,9 milhões de veículos elétricos que contam com 225 mil pontos de recarga. A Anfavea diz que esses dados de 2020 foram apurados pela Electromaps, empresa de soluções para carregamento de veículos elétricos.

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A gente precisa se preparar na infraestrutura de carregamento de veículos elétricos”, disse o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, durante entrevista coletiva para divulgar o balanço do setor.

A entidade trabalha com estimativa de expansão para os próximos 10 e 15 anos, com a frota brasileira de veículos elétricos atingindo 3,2 milhões de unidades em 2035 diante de 154 mil pontos de recarga no país.

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A participação de veículos elétricos no total de vendas está em tendência de crescimento gradual. De janeiro a março, houve emplacamento de 1.291 veículos elétricos (automóveis e comerciais leves), próximo do total de todo o acumulado do ano passado (2.860). No primeiro trimestre, as novas tecnologias de propulsão (elétricos e híbridos) já respondem por 2,6% do total de vendas, acima da fatia de 1,8% de todo o ano de 2021 e 1% em 2020.

Entre os veículos pesados, foram 348 caminhões e ônibus elétricos emplacados no primeiro trimestre, acima dos 313 registrados em todo o ano de 2021. Incluindo os veículos a gás, as vendas desse segmento (elétricos e a gás) já representam 1,3% do total de vendas de caminhões e ônibus licenciados no país, acima de 0,3% de 2021.

“Várias montadoras já estão trazendo veículos elétricos. Os volumes estão aumentando gradativamente. Isso mostra a importância da eletrificação. Decidimos trazer esse desafio de como implementar a infraestrutura de carrregamento para veículos elétricos no Brasil”, disse o presidente da Anfavea, em referência à criação do grupo de trabalho.

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Pedágio diferenciado

O grupo de trabalho é constituído por representantes das montadoras, de CEO a técnicos de fábricas. Foram definidos três objetivos: definir rotas prioritárias para estações de recarga rápida em rodovias; buscar parceiros para criação de rede de recargas (redes de postos de abastecimento, concessionárias de rodovias, empresas de energia, entre outros); identificar possíveis estímulos para o uso de veículos eletrificados (redução de impostos e taxas, isenção de rodízio, entre outros).

O presidente da Anfavea disse que a entidade já tratou o assunto com o ministro Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) em reuniões, para incluir nas concessões de rodovias políticas de ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) que que contribuam para a expansão dos veículos elétricos. Em São Paulo, há existe iniciativa nesse sentido.

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“Ontem, eu encontrei em um evento o João Octaviano Machado Neto, que é Secretário de Logística e Transportes do Estado de São Paulo, e ele anunciou que o pedágio vai ter condições diferenciadas para veículos elétricos”, afirmou Moraes.

Citando um estudo do Boston Consulting Group, a Anfavea trabalha com o cenário inercial de que dos 4,1 milhões de veículos novos a serem vendidos no ano de 2035, 32% deles já teriam algum grau de tecnologia de eletrificação, podendo atingir 62% no caso de uma convergência global para avançar nesse processo. Esse cenário de convergência aponta uma necessidade de instalação de 154 mil carregadores e investimentos da ordem de R$ 14 bilhões até 3035. A frota de veículos leves elétricos atingiria 2% do total e 10% em 2035. Haveria ainda, segundo um estudo, um aumento de 1,5% no consumo de energia elétrica para suprir a demanda em 2035.

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Semicondutores

A pandemia da Covid-19 e a guerra entre Rússia e Ucrânia, que colocou o barril do petróleo acima de US$ 100, fazendo disparar o preço dos combustíveis e a inflação no mundo interior, contribuíram para uma maior atenção das montadoras para o ritmo do processo de descarbonização do setor.

Efeito econômico da crise sanitária que paralisou fábricas na China, a escassez de semicondutores, componentes com um peso maior na produção de um carro elétrico, tem castigado o setor automotivo, que foi obrigado a reduzir a produção, que em março chegou ao pior nível em 19 anos no Brasil.

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Os dados de vendas de veículos no Brasil decepcionaram no primeiro trimestre, mesmo com a redução do IPI (imposto sobre produtos industrializados) anunciada pelo governo federal. No primeiro trimestre, houve uma queda de 23,2% no licenciamento de novos autoveículos (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) no Brasil, totalizando 406 mil unidades (189,4 mil em janeiro, 132,3 mil em fevereiro e 146,8 mil em março). A redução foi atribuída principalmente à falta de semicondutores, que provocou elevação dos preços dos veículos nos últimos anos.

Carros elétricos precisam de carregadores específicosdfd

Vibra

No meio corporativo, a transição energética em curso ganha impulso com anúncios de investimento e parcerias. Vibra (ex-BR Distribuidora) é um dos principais players brasileiros de olho na eletromobilidade. Em fevereiro, a companhia anunciou um aporte inicial de R$ 5 milhões na startup Easy Volt (EZVolt), empresa que possui uma das maiores redes de recarga elétrica no Brasil. Os recursos disponibilizados para a EZVolt podem ser convertidos pela Vibra, no futuro, em participação na sociedade. A transação conta ainda com mecanismos de opção de compra, caso opte pela conversão das ações.

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Segundo a Vibra, a EZVolt é considerada líder no mercado de recarga de veículos elétricos em âmbito nacional, sendo a primeira empresa brasileira a operar em um modelo de negócio conhecido como “charge as a service”. A startup já opera em 9 unidades da federação (Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, Pernambuco e Distrito Federal), atendendo frotas corporativas e veículos de passeio.

“Essa iniciativa marca a entrada da Vibra no ecossistema de eletromobilidade, na direção estratégica de desenvolver a principal rede de recarga de veículos elétricos no Brasil em sua rede de postos urbanos e rodoviários, bem como oferecer soluções dedicadas a frotas, estações públicas, estabelecimentos comerciais e estacionamentos. A Vibra pretende atuar na oferta de soluções de recarga de EVs aos seus clientes e parceiros, integrando a operação de recarga, soluções digitais e fornecimento de energia elétrica a partir de fontes renováveis tais como eólica e solar, reforçando seu posicionamento de se tornar uma empresa completa de energia”, resumiu a Vibra, em nota.

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Segundo Bernardo Winik, diretor executivo de Comercial B2B, o mercado de recarga de veículos elétricos possui grande potencial de crescimento para os próximos anos. Já o CEO e fundador da EZVolt, Gustavo Tannure, vê essa parceria como uma maneira de escalar ainda mais as operações da empresa, aproveitando a capilaridade comercial da Vibra.

Estacionamentos

Já a Ecovagas, rede de carregamentos de veículos elétricos, criada em 2020 em uma parceria entre a Estapar, maior rede de estacionamentos do país, e a Enel X, empresa de soluções energéticas da Enel Brasil, assinou, em janeiro deste ano, um acordo com a Zletric, empresa especializada em energia para recarga de veículos elétricos e híbridos, para combinar as suas estruturas, formando uma única empresa.

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A companhia informou que a negociação visa ampliar o mercado brasileiro de eletromobilidade e a infraestrutura de recarga de veículos eletrificados, nos principais pontos onde o usuário pode estacionar seu carro, seja em estacionamentos localizados em aeroportos, prédios comerciais, shopping centers, arenas e hospitais, ou na esfera residencial, com soluções e tecnologia para condomínios em diferentes localidades.

Atualmente, a Ecovagas conta com mais de 200 pontos de recarga instalados em 29 cidades e em 13 estados brasileiros. Segundo a Ecovagas, até o fechamento do negócio, esse número saltará, de forma combinada, para cerca de 500 pontos.

A expectativa da empresa é de que, até o fim de 2022, estejam disponíveis até 1.000 pontos para todos os públicos, sejam frotistas, montadoras, locadoras e gestoras, além de consumidores finais que já possuam carros elétricos e híbridos.

“A recarga dos veículos elétricos será uma quebra de paradigma, pois não será feito em locais de passagem, como acontece com os postos de combustíveis hoje. As pessoas otimizarão seu tempo carregando seus veículos enquanto estacionados, simultaneamente fazendo outras atividades diárias ou em suas residências”, disse André Iasi, CEO da Estapar, controladora da Ecovagas.

O setor de locação de veículos já toca planos de ampliação de frota elétrica. A Movida, empresa de aluguel de carros, é uma do segmento que investe em mobilidade elétrica há mais de cinco anos, com frota de ativos movidos a eletricidade, pontos de recarga rápida e wallboxes, além de estacionamento de bicicletas elétricas para clientes que alugam carro na locadora.

“Nosso compromisso na evolução da mobilidade urbana também se estende a fornecer uma frota eletrificada e sustentável. A Movida, do Grupo Simpar, instituiu como meta para os próximos anos aumentar toda a sua frota de veículos elétricos e híbridos em 20% e de reduzir em 30% sua emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE)”, disse Renato Franklin, CEO da Movida, em nota.

De olho na expansão de sua frota elétrica, o Movida Cargo, serviço de locação de veículos utilitários para empresas oferecido pela Movida, empresa de aluguel de carros, registrou no ano passado crescimento exponencial de 1800% no faturamento em relação a 2020, quando foi criadodfd

Legislação

O novo cenário de maior número de veículos elétricos das ruas também é um desafio para governos, legisladores e empresas do setor da construção civil. A lei que garante que todos os novos edifícios da cidade de São Paulo tenham pelo menos um ponto de recarga de carros elétricos completou um ano no último dia 31 de março.

Com o carregador disponível no edifício, o condutor pode recarregar na própria garagem no retorno para casa ou na chegada ao trabalho, pois a lei também se aplica a edifícios comerciais. No mês passado, a cidade paulista de Jacareí também publicou uma lei que também obriga a disposição de estação de carregamento veicular elétrico nos novos edifícios.

Segundo Diogo Seixas, CEO da Neocharge, um braço da NeoSolar, que atua no mercado em energia solar fotovoltaica, a tendência é que cada vez mais cidades tenham leis semelhantes, já que o carro elétrico vem se tornando uma opção viável para muitos brasileiros com a alta constante dos combustíveis. Porém, para que o carro elétrico chegue a mais pessoas, é preciso viabilizar infraestrutura de carregamento, destaca a Neocharge, em nota.

Segundo a empresa, outra vantagem para os proprietários de unidades habitacionais em edifícios com estações de recarga é a valorização do imóvel, uma vez que a procura por esse tipo de unidade tende a aumentar com o tempo, à medida que os carros elétricos se popularizarem.

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.