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O que muda para os passageiros com a nova holding da Gol e da Avianca?

Por enquanto, as companhias aéreas devem manter as respectivas marcas, talentos e equipamentos de forma independente. Mas, há dúvidas se a operação terminará em uma fusão

O que muda para os passageiros com a nova holding da Gol e da Avianca?
17 de Maio, 2022 | 02:20 PM

Bloomberg — O tabuleiro de xadrez das companhias aéreas na América Latina está se movendo. Não é segredo que a pandemia atingiu a lucratividade do setor e forçou reorganizações, alianças e fusões. Nesse cenário, foi revelado o novo movimento da Avianca para reduzir custos e consolidar sua atuação no mercado aéreo internacional: uma nova holding regional em conjunto com a brasileira Gol (GOLL4). Mas, em termos práticos, o que os viajantes e a concorrência podem esperar?

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Os detalhes do acordo entre Avianca e Gol

Os acionistas da Avianca e da Gol concordaram em criar uma estrutura de holding chamada Abra Group Limited (Grupo Abra), que esperam ajudar a posicionar essas empresas como líderes no mercado aéreo latino-americano. A mudança está sujeita a aprovações regulatórias, mas deve receber luz verde no segundo semestre do ano.

A nova estratégia da Avianca se soma ao anúncio, há menos de um mês, em que informou a compra de 100% das ações da Viva Air, companhia aérea de baixo custo que opera na Colômbia. Isso implica que a empresa também estará sob o guarda-chuva do grupo, que terá os direitos econômicos das operações da Viva na Colômbia e no Peru, embora não a controle.

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O Grupo Abra também disse, por meio de nota à imprensa, que teria um investimento minoritário na companhia aérea Sky Airline no Chile, o que poderia sinalizar outra possível expansão da Avianca por meio de uma união com a Sky.

Como o Grupo Abra pode beneficiar os viajantes?

A Avianca garante que esta nova holding beneficiará os clientes por meio de um forte programa de fidelidade e uma estrutura de custos mais eficiente que permitiria preços baixos, uma malha de rotas que promoveria conectividade direta entre destinos, conexões práticas, mais destinos e mais frequências de voos.

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Por enquanto, sabe-se que as três companhias aéreas manterão suas marcas, talentos e equipamentos de forma independente. “Nossa visão é criar um grupo de companhias aéreas capaz de enfrentar os desafios do século 21 e que melhore a experiência de voo para nossos clientes, colaboradores, aliados e comunidades onde atuamos”, disse Roberto Kriete, maior acionista da Avianca e que agora ser o presidente do Conselho de Administração do Grupo Abra.

Os números do mercado aéreo devem mudar. A Abra será o líder?

A Avianca, que tem mais de 102 anos de operações contínuas, é líder na Colômbia, Equador e América Central. A empresa informa que opera 130 rotas, 3.800 voos semanais e uma frota de 110 aeronaves Airbus 320 e Boeing 787 Dreamliner, conectando-se a cerca de 65 destinos na América e na Europa.

Por sua vez, a Gol é a maior companhia aérea do Brasil e líder nos segmentos corporativo e de lazer. A empresa opera uma frota padronizada de 142 aeronaves Boeing 737 para atender 157 rotas, 11 delas internacionais.

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Já a Viva tem 23 aeronaves A320. Esse número somado aos 142 da Gol e aos 110 da Avianca seriam 275, o que aproxima o grupo das 335 aeronaves operadas pela Latam Airlines, que ainda lidera o mercado em número de aeronaves.

No entanto, além de ter a maior frota, a Latam Airlines continuaria a ser líder na região devido à sua participação no mercado latino, que é de 15,3%, enquanto a participação da Gol e da Avianca é de 10,1%, segundo a euromonitor.

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Cabe destacar que a Abra passaria a fazer parte do top 20 das companhias aéreas mais importantes do mundo, levando em conta que a American Airlines tem 965 aeronaves e a número 20, que é a Air France, tem 206.

“Esse acordo coloca a Abra Airlines em posição de liderança no mercado de transporte aéreo da região, podendo atender um PIB próximo a US$ 3 bilhões, gerando oportunidades de crescimento em capacidade e receita”, disse Constantino de Oliveira Junior, que atuará como CEO do Grupo Abra.

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Haverá fusão entre Avianca, Viva e Gol?

Agora, deve-se notar que este movimento é apenas uma transação entre acionistas e não implica uma fusão, ainda. No entanto, o advogado em direito aeronáutico, Juan Felipe Reyes, explique que se pode esperar uma união operacional, como já aconteceu no passado.

“Na minha opinião, é uma companhia aérea multinacional que vai beneficiar as companhias aéreas da Abra ao flexibilizar rotas, frequências e trocas de frotas entre as companhias aéreas do mesmo grupo e isso deve se traduzir em poder oferecer mais rotas a um custo menor para o companhia aérea. Será necessário ver como evolui a conveniência para determinar se eles serão incorporados operacionalmente”, ressalta.

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Além disso, ele ressalta que, uma vez que se saiba sob que forma jurídica a aliança será realizada, será possível saber com mais precisão se será uma integração que implicará em uma fusão operacional no futuro ou não.

Por outro lado, ele destaca que esse movimento consolida a existência de grandes grupos ao invés de companhias aéreas individuais isoladas. “O ditado de que há força na unidade se aplica aqui porque nenhuma companhia aérea pode sobreviver sozinha. Por isso a tendência é integrar para poder cobrir mais o mercado, obter flexibilidade na operação e mais aeronaves, a um custo menor”, indica.

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Os benefícios e os desafios

A Avianca e a Gol funcionariam de forma complementar ao se aliar em termos de rota na América Latina. No entanto, as duas companhias aéreas têm modelos de negócios diferentes. A Gol é uma companhia aérea regional de baixo custo, enquanto a Avianca é uma empresa híbrida, apostando em baixo custo nas rotas de curta distância, mas serviço completo nas rotas de longa distância.

Segundo a Fitch Ratings, a criação do grupo é favorável para a Gol no médio-longo prazo. “Isso provavelmente favorecerá a posição de negócios da GOL, pois deve oferecer uma oportunidade de melhorar a escala e o acesso a uma malha com pouca sobreposição e um sistema de rotas mais amplo, bem como operações de carga e um programa de milhas mais forte”, disse a agência de classificação de risco em um comunicado.

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Para a Fitch, no modelo de holding, ambas as companhias aéreas terão oportunidades de redução de custos se negociarem em grupo, embora esclareça que até agora “há poucas informações sobre as sinergias, as reduções de custos esperadas e a estratégia financeira sob o novo grupo”.

No entanto, René Armas Maes, vice-presidente da Jet Link International, garante que os maiores benefícios desta holding serão uma maior base de clientes e maior poder de negociação, “o que provavelmente melhorará a capacidade de expansão no momento certo”.

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Armas Maes considera ainda que o portfólio unificado de encomendas de aeronaves “criaria sinergias naturais em termos de maior poder negocial com vendedores e fornecedores, desde catering, combustível, software de planeamento de voo e até novas tecnologias”. E acrescenta que a transação oferece a possibilidade de retirar mais rapidamente a frota antiga.

Quanto aos maiores desafios, o analista destaca que a integração cultural será “fundamental para o sucesso da operação”. Além disso, a frota familiar diferenciada (Gol com Boeing 737 e Avianca com A319 e 320), cria desafios. “A simplificação da frota é improvável e, portanto, as sinergias líquidas anuais totais podem não ser otimizadas e podem não ser capazes de gerar economias de custos substanciais.”

Ele também destaca que a nova holding pode ter que abrir mão de slots nos principais aeroportos para obter aprovação regulatória. Por fim, para o especialista, o grupo terá que aplicar estratégias que permitam a eficiência de custos sobreviver na indústria: gerenciar e reduzir o peso dos produtos a bordo, melhorar o planejamento de rotas, estratégias de consumo de combustível, além da parte gerencial para que possam operar com o menor número de funcionários em tempo integral por aeronave.

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Leidys Becerra (BR)

Leidys Becerra (BR)

Jornalista colombiana com experiência na cobertura de temas locais e internacionais e na geração de conteúdo digital. Foi redatora de notícias da Univision, com passagens pelas redações dos periódicos colombianos El Tiempo e da Semana

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