Bloomberg — Os investidores globais de ações podem estar aflitos, mas a situação é pior em outros mercados. E isso por si só talvez seja suficiente para sustentar a recuperação das bolsas por enquanto.
Depois de mostrar resiliência a sucessivas ondas de coronavírus desde 2020, o mercado acionário se recuperou em tempo recorde do choque inicial causado pela guerra na Ucrânia e seu impacto no fornecimento de commodities. As ações não estão se curvando às expectativas tenebrosas do mercado de títulos de que uma recessão global está a caminho.
Parte da resiliência recente se deve à mentalidade arraigada de “comprar na baixa”. No entanto, as bolsas agora têm de superar preocupações maiores à medida que a inflação prejudica a demanda, o crescimento econômico diminui e a era da política monetária excessivamente flexível parece estar chegando ao fim.
Embora esses fatores sinalizem que os lucros das empresas estão prestes a mudar — para pior — há argumento para continuar investindo em ações — até porque as alternativas são escassas.
“Com os títulos e instrumentos de curtíssimo prazo oferecendo rendimentos reais negativos, os investidores ainda estão inclinados a aproveitar a baixa nas ações globais desde o início da pandemia, apesar da deterioração nos fundamentos”, afirmaram estrategistas do Citigroup (C) liderados por Robert Buckland em relatório divulgado na sexta-feira (1).
A recuperação vista em março confirma a avaliação. O primeiro trimestre foi o pior para as ações globais desde o início da pandemia, mas houve uma retomada no mês passado. Um indicador de volatilidade das ações de empresas com grande valor de mercado na Zona do Euro mostra que a queda provocada pela guerra foi a mais mais curta do século XXI em termos de perdas no mercado.
As ações da Apple (AAPL) tiveram a maior sequência de ganhos em quase 20 anos e o mercado acionário dos Estados Unidos saltou quase 10% na segunda quinzena de março. Mesmo na Europa, epicentro da crise geopolítica, o índice Stoxx 600 recuperou as perdas iniciais sofridas após a Rússia invadir a Ucrânia.
“Mercados otimistas não somem discretamente. Afinal, eles enfrentaram muitas outras crises nos últimos anos”, disse Chris Beauchamp, analista-chefe de mercados do IG Group em Londres. “É difícil mudar velhos hábitos; a ideia de ‘comprar na baixa’ pode ser ridicularizada, mas é uma boa estratégia.”
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