Startups

A receita dos unicórnios que não demitiram - e nem pretendem demitir

Os CEOs das startups brasileiras Loggi e Cloudwalk, avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, explicam como buscam operar com eficiência em tempos de crise

Há startups com o status de unicórnio que não só não demitiram como mantêm planos de expansão
06 de Junho, 2022 | 06:34 PM

São Francisco — Mesmo que o verão esteja chegando aos Estados Unidos, os ventos frios da virada econômica provenientes de São Francisco estão se alastrando da Costa Oeste americana até a Terra do Fogo na ponta sul das Américas. “A tempestade fria está chegando”, disse Michelle Messina, especialista em estratégia do Vale do Silício e consultora em aceleração de negócios e startups, em entrevista para a Bloomberg Línea.

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”Estamos realmente enfrentando alguns anos de baixo crescimento pela frente. Os empreendedores têm que pensar no que fazer para continuar crescendo e escalando, mas cortando custos, e pensando como podem depender da tecnologia para automatizar processos”, disse Messina.

A consultora aconselha que uma empresa que queira sobreviver a esse ciclo precisa descobrir como fazer isso sem a necessidade de capital externo, simplificando operações e automatizando o máximo possível para minimizar a dependência de pessoas. A decisão por fazer ou não demissões dependerá do modelo de negócios da empresa, segundo a consultora. Será fundamental olhar para algumas métricas, em especial a receita por funcionário, além de responder questões como qual é o mercado, quão grande é o negócio, com que frequência a empresa fecha novos clientes e qual é a rotatividade.

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Luis Silva, CEO da Cloudwalk, startup brasileira de pagamentos avaliada em US$ 2,15 bilhões, disse que a receita para não demitir é “ser bem eficiente”. ”Nosso time tem por volta de 420 pessoas espalhadas em mais de 15 países. Somos a empresa de pagamento mais eficiente no segmento e nossa receita por funcionário é 50% maior do que a do nosso concorrente. A tendência é aumentarmos isso em torno de 10 vezes nos próximos trimestres”, contou Silva, em entrevista para a Bloomberg Línea.

“Estamos aproveitando que outras empresas estão demitindo e convidando os melhores profissionais para se juntar à CloudWalk”, afirmou.

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A Loggi, unicórnio de logística do Brasil, captou sua Série F de US$ 212 milhões no ano passado. O CEO da empresa, Fabien Mendez, disse que a startup não fez demissões e que a decisão por cortes de pessoal depende da situação de caixa das empresas. ”Algumas empresas estavam se preparando para ter um crescimento de 200%, e agora terão 50%. Não é uma receita de bolo. É caso a caso, mas em geral muitas empresas tinham essa perspectiva de crescimento gigantesco, que vai ser moderado”, disse.

Após um ano recorde de investimento em startups brasileiras, que acelerou “ofertas de trabalho todos os dias”, segundo Mendez, “as coisas estão voltando ao normal”. ”Não acho que vai faltar trabalho para quem estiver capacitado. Vejo muita demanda, mas as pessoas não vão receber uma oferta de trabalho por mês”, disse, em entrevista para a Bloomberg Línea.

Mesmo com a Loggi em um estágio avançado, Mendez afirma que não vê “nenhum IPO relevante de tecnologia nos próximos anos”. ”Eu não tenho uma bola de cristal, mas se tiver que ‘chutar’, acho que estamos realmente no começo de um longo inverno e isso obviamente vai ter uma reflexão no mercado privado”, afirmou o CEO.

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Mendez, que fundou a Loggi em 2013, aconselha que os empreendedores precisam neste momento reduzir o foco no crescimento explosivo. “Só de ter menos crescimento a qualquer custo já se consegue maior eficiência”, disse, citando que a Loggi planejava campanhas de marketing para atingir pequenas e médias empresas e agora pretende “crescer mais devagar”.

”Nosso fator de crescimento vai depender muito mais de um bom serviço. Chegaremos à penetração de mercado que queremos, mas será um pouco mais lento e eficiente”, disse o CEO. Contrariando a lógica de startups de “se mover rápido e quebrar as coisas”, para Mendez, o foco em operação e eficiência fez com que o caminho da Loggi fosse até “mais prazeroso”.

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”Às vezes esse crescimento explosivo gera muita frustração, cansa os times e os clientes. O simples fato de ser mais ‘zen’ é uma coisa muito positiva. Focar no que realmente importa, na experiência do cliente, na satisfação e nos unit economics. Acho bom passarmos por um momento de maior racionalização”, disse Mendez.

O CEO disse que a Loggi atingiu o breakeven no ano passado e que “vai atingir novamente em breve”. Mas crescer devagar não é o objetivo da CloudWalk. A fintech também não gera lucro, mas, segundo Silva, a empresa consegue ser rentável “quando quiser”. ”Preferimos reinvestir esse lucro no crescimento da empresa”, disse. ”Nosso valuation não foi prejudicado porque nosso ritmo de crescimento é muito rápido. Por isso conseguimos captar mais de US$ 365 milhões”, afirmou Silva.

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A CloudWalk está investindo em uma infraestrutura Blockchain aberta chamada de CloudWalk Network. Nessa rede recém-lançada, qualquer desenvolvedor consegue criar aplicações. A fintech lançou o real digital brasileiro (BRLC), moeda dada como cashback para os clientes que fazem pagamentos nos estabelecimentos por meio da maquininha de adquirência da startup, a InfinityPay.

Segundo Silva, mais de 130 mil usuários brasileiros usam a BRLC, criptomoeda que pode ser usada para pagamentos em mais de 280 mil lojistas que usam a maquininha da fintech no Brasil. “A rede é uma visão de futuro. Acreditamos que a tecnologia Blockchain vai substituir todos os trilhos do sistema financeiro, seja investimento, seja pagamento”.

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Tempos difíceis para ser CEO

Messina treina dois CEOs brasileiros para estratégia e negócios. A consultora viu de perto a crise financeira de 2008 e 2009 e o estouro da bolha das “pontocom” no Vale do Silício em 2000. E testemunhou Apple, Facebook e Amazon sobreviverem e se reinventarem em crises como essas.

“Já vi esses ciclos em que a ideia parece muito boa, mas ou a liderança não consegue navegar ou o modelo de negócios da empresa não é convincente o suficiente. Ou não entrega valor suficiente ao consumidor para que a empresa sobreviva. Vimos isso com a pandemia em setores como viagens, entretenimento e vamos ver de novo”, disse Messina.

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“Tempos difíceis obrigam as pessoas a descobrir quais atributos e características elas têm para serem resilientes, flexíveis. Acho difícil ensinar resiliência, mas este inverno vai separar as boas empresas das grandes empresas”, disse.

Essas são algumas dicas que empreendedores podem seguir para se preparar para o inverno, segundo a especialista do Vale do Silício Michelle Messina:

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  • Se você tem uma linha de crédito, pegue crédito em dobro.
  • Tenha uma apólice de seguro.
  • Pague suas dívidas imediatamente.
  • Automatize o máximo que puder.
  • Para todas as pessoas que você deseja manter em sua empresa, faça a entrevista de permanência perguntando por que elas querem permanecer na empresa. Pergunte o que está errado e o que precisa ser consertado. Elas sabem as respostas.

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Isabela Fleischmann

Isabela Fleischmann (ES)

Periodista brasileña especializada en cubrir tecnología, innovación y startups

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